top of page

Frida Kahlo, surrealista?

Tenho Frida Kahlo como uma inspiração artística e biográfica. Ao fundir sua existência biológica e afetiva com a paisagem, a estética e o imaginário coletivo originário do México, ela rompe com o distanciamento entre mundo interior e exterior. Desse modo, embora a artista não fosse alheia à produção artística do seu tempo, dentro e fora de seu país, percebo sua associação com o surrealismo como um mal-entendido.


Roots, 1943. Fonte: https://www.fridakahlo.org/roots.jsp


Por que não considero Frida Kahlo Surrealista?


O surrealismo foi um movimento influenciado pela psicanálise, que se pauta no rompimento com uma noção de racionalidade constituída no continente europeu, que separa mente e corpo, pensamento e emoções. Essa compreensão, contudo, não condiz com todos os povos que foram colonizados e, mesmo após independentes, subordinados à cultural europeia. O que o continente greco-romano-cristão toma por fantástico, irreal e inconsciente, algo escondido a ser cavado, é vivo, presente e real em outras culturas. Assim, o visível e o invisível, o interior e o exterior convivem, não pelo esforço buscado pelos surrealistas, mas por uma perspectiva de mundo distinta.


Entendo que Frida Kahlo investiga a pintura do invisível na experiência real e consciente: dos afetos, da condição de mulher, da herança colonial e sua crise identitária. Todo este abstrato está contido na vida, é sentido no corpo, acontece em um lugar. Para capturar o inacessível aos olhos, a artista inventa uma expressividade própria, a partir de seu corpo e sua cultura, ambos feridos. Esta compreensão a aproxima de uma perspectiva contemporânea, expressa, por exemplo, no Manifesto Afro-surreal, reafirmando-a como mulher e artista a frente do seu tempo.


Self Portrait Along the Boarder Line Between Mexico and the United States, 1932. Fonte: https://www.fridakahlo.org/self-portrait-along-the-boarder-line.jsp


Um outro olhar sobre As duas Fridas


As duas Fridas (Las dos Fridas) foi pintada por Frida Kahlo em 1939, em meio a sua separação de Diego Rivera. Na obra de 1,73 m x 1,73 m a artista desdobra aspectos de identidade, personalidade, emoções e comportamentos que coexistem em seu ser. Em 1947 o Instituto Nacional de Belas Artes do México adquiriu a tela diretamente da artista, transferindo-a em 1966 para o o Museo de Arte Moderno (México), onde se encontra. A obra foi exposta pela primeira vez em 1940, na Exposición Internacional de Surrealismo en México, em decorrência da associação da produção de Frida ao surrealismo por André Breton em 1938.


Apesar da associação e participação na exposição, a a artista nega o vínculo com o movimento: "Não sou surrealista, eu pinto a minha realidade", diz em uma de suas frases emblemáticas. Há nesta situação o reflexo de uma inserção condicionada de artistas do Sul do mundo nos circuitos internacionais. Fora do continente europeu e dos E.U.A. a arte destes territórios é recorrentemente reduzida ao exótico e tem seus sentidos distorcidos para atender à visão da cultura dominante.


A ambiguidade entre a declaração de Frida Kahlo e a participação em eventos vinculados ao surrealismo reflete a ginga que artistas nestas condições precisam ter para não serem relegados ao ostracismo. Isto não se confunde com uma postura subserviente. A melhor resposta vem da própria arte e As duas Fridas é um exemplo excepcional desta estratégia.


Frida Kahlo entre dois mundos


Las dos Fridas, 1939. Fonte: https://mam.inba.gob.mx/destacadas.html#obra18


Na pintura à óleo As duas Fridas, a artista desdobra seu autorretrato em duas figuras. A da esquerda traja um vestido branco vitoriano, tem a pele mais clara, a face limpa de buço e maquiagem suave, assimilando uma estética europeia.


A Frida da direita usa um vestido tehuana, tradicional da cultura mexicana, maquiagem mais forte, mantém o buço natural e apresenta a pele mais escura, refletindo sua identidade de origem. Ela segura um camafeu com o retrato de Diego Rivera infante conectado a uma artéria de seu coração, enquanto a outra corta uma artéria, impedindo-a de qualquer vínculo, manchando o branco imaculado do vestido europeu com sangue, que se confunde com os bordados de flores e aves da saia.


Note que os corações dos retratos exibem lados avessos. Dilacerado em sua representação, o da esquerda precisou que o vestido fosse cortado para expor-se. Já o órgão cardíaco da personalidade à direita, que se mantém conectada ao amor e às origens, exibe-se superposto ao vestido e permanece íntegro.


O conflito e a conciliação em As Duas Fridas


Existe na tela As duas Fridas uma ambiguidade entre conflito e harmonia. O céu nublado e revolto ao fundo ao fundo, assim como o sangue, sugere um embate, que embora possa ser associado ao conturbado relacionamento da artista com Rivera, permite outros olhares. Considero que Frida Kahlo também aborda nesta tela o confronto entre a herança colonial e sua cultura originária, mutilada pelas violências e apagamentos histórico-culturais. Fazia parte de suas pautas a definição de uma identidade mexicana, como confirma sua participação no movimento Mexicayotl.


Em resposta à conturbação das feridas afetivas e políticas que expõe, ela expressa subversão a partir das pernas abertas de ambas as figuras, que com olhar incisivo desafiam o observador. As diferentes Fridas se unem, se acolhem no encontro das mãos e na conexão entre as artérias do coração e, assim, se fortalecem. Ao expressar em seus autorretratos a relação entre o visível e o invisível das constituições identitárias, modos de ser, afetos e política a artista nega a ideia de unidade ou integridade que extingue a complexidade das existências.


Para finalizar, se você também é fã da Frida Kahlo e ainda não assistiu, fica a dica do filme Frida (2002), dirigido por Julie Taymor e Salma Hayek.


Agora é com você: o que pensa das obras dessa artista?

Até a próxima!



33 visualizações0 comentário

Comments


bottom of page