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O dia em que matei a mosca

Na tela do celular, o relógio marca 21h54. A hora exata em que alcanço a escova de dentes com a mão. No movimento seguinte, em direção à pasta de dentes, me deparo com ela. A mosca de filtro. Parada no canto da pia. Imóvel e inofensiva. Preta, suja e não sei mais o quê. Não quero saber o que mais era aquela coisa. Nem penso. Abro a torneira. A água começa a avolumar-se. Forma-se um açude pequeno que se espalha lentamente. Observo o ser ainda imóvel e miro de volta no reparo. Aumento a pressão. A água acumula-se. Viaja por toda a extensão do vasto terreno, mas não alcança a mosquinha inerte. Dorme, será? Será que medita ao som das cataratas? Suponho que ela pense que aquele som seja de uma cachoeira que corre fluente numa manhã de verão carregando folhas caídas para o leito do rio. Permanece imóvel. Eu me pergunto se há algo errado com a pia, pois não forma redemoinho. Quero ver a violência da água contra aquele ser ingenuamente inoperante. Alcanço novamente o reparo da torneira e aumento ainda mais a pressão. Forma-se um lago. A física finalmente se apresenta em cena. As correntes se formam, aumentam rapidamente, circulando em direções variadas e chocando-se umas contra as outras – e, como se para frear as repetidas colisões, começam a rodar umas em torno das outras. O volume aumenta, e o tamanho do redemoinho que acaba de surgir cresce na mesma medida, formando um maelstrom. O maelstrom de Júlio Verne se forma dentro da pia do meu banheiro. Ainda assim, a mosca está lá, intacta. Como pode um ser de tamanha insignificância estar protegido ao mesmo tempo que está exposto às mais sublimes intempéries?


Que afronta daquele bicho de quatro asas, incapaz de me devolver a ira com a qual eu o trato! Mais uma vez, faço uso de meus podres poderes. Encho a mão com um jato de água e arremesso o líquido na mosca indefesa, lançando-a na correnteza trituradora. Ela luta. Luta como uma sobrevivente. Safa-se das sinistras correntes e acomoda-se novamente no canto oposto da pia. Toma ar e enxuga as asas. Aplico o golpe seguinte. Assisto ao seu desespero quando revela novamente as quatro asas e desmonta-se em esforços para ganhar… o quê? Mais duas longas horas de vida? Que planos teria? Meditar? É indestrutível a miserável. O terceiro golpe é desnecessário. Fecho a torneira e a observo desfalecida no centro da pia. E não é que a maldita começa a mover as asas novamente? Sobrevivera! Não suporto! Abro novamente a torneira, agora até que tranque no limite do reparo. Forço um pouco mais para garantir que toda a força da minha estupidez possa fazer cumprir o fado da mosca meditativa. A corrente, desta vez, é inclemente. Empurra-a sem tréguas. Ela gira conforme o fluxo das águas e é conduzida ao olho do furacão. Ela roda em torno do ralo da pia, pois nem a água suporta mais tanta colisão. Desgraçada, nem se despede. Nem um tolo adeus. Uma asinha ao alto em sinal de até logo. Simplesmente lança mão das vias de acesso da água para os encanamentos de onde escaparia à minha crueldade. À minha gana de morte. Que vá, ingrata mosquinha a quem presenteei com uma correnteza libertadora. Eu a conduzi à salvação da imersão em fluxo contínuo sem que tivesse jamais que tomar qualquer decisão pelo resto de sua vida. Seria conduzida conforme o desejo da água. Não teria mais que vigiar os próprios desejos. Nunca mais precisaria resistir às próprias sanhas. E o mais importante de tudo: não teria culpa nenhuma da jornada às profundezas. Culparia a natureza. A pressão da água. A colisão do fluxo das correntezas. A Deus.

Imagem abstrata de uma mosca sendo tragada pela água.

Escovo os dentes com a torneira aberta em tempo integral. Não quero que a mosquinha fique presa em alguma curva no caminho. Vá. Vá tão longe quanto conseguir. Não se agarre em nada. Não fixe suas patinhas grudentas em nenhuma vilosidade das paredes desse encanamento. Não perca tempo com as baratas, são seres nefastos e putrefatos por dentro. Fedem. Não se agarre a fungos ou liquens, por mais lindas que sejam as paisagens que constroem, não estão ali para salvar ninguém objetivamente. Deixe-os ser o que são. Sua ferramenta de salvação está na beleza de seus movimentos. São um adorno à feiura dos subterrâneos. Diga “alô” aos vermes cilíndricos por mim. São bobos, mas certamente haverão de identificar uma saudação amigável. Fuja dos escorpiões. São cruéis e não hesitam em infiltrar sua peçonha em corpos vivos, pois, narcisos que são, só veem ameaça. Quando chegares a algum lugar mais calmo, tome cuidado com as lagartixas. São seres bondosos, mas lagartixas estão para moscas como humanos estão para vacas. Resista ao ímpeto de segurar-se. Deixe-se ir. Em algum momento, em breve, você encontrará uma ilha com muitos resíduos de coisas impronunciáveis em humanês, mas que, no seu dialeto mosquês, têm grande valor. Coisas que nós humanos entenderíamos como alimento. Sonharei contigo mosquinha. Sonharei contigo e lhe contarei meus mais íntimos segredos enquanto durmo. Enquanto submerjo nas minhas 22 mil léguas submarinas noite após noite. Onde desejaria ficar. Onde desejaria fixar residência e permanecer para todo o sempre. De onde, diariamente, contra meus desejos mais taciturnos, sou lançada de volta para a superfície. De volta. Duas palavras que têm um sentido único se usadas juntas. Por que não se unem em eterna aliança de uma vez por todas? Não quero mais essa superfície onde não encontro nada além de platitudes. Platitudes superficiais. E há quem diga que a Terra é redonda. Ria, mosquinha. Ria o quanto quiser. Compreendo e compartilho do teu riso hediondo. Sou cientista. Achas que não sei que estão certos esses cretinos? Sei, sim. Sabemos nós duas – e eles – que vivemos em uma imensa bola. Que é preciso demasiada parcimônia para ouvir certas frases sem cortar os pulsos pretos, não é mesmo? Eu sei. Sinta, lá no fundo, muito além do que cobre sua pele dura. Sinta o tipo de atrocidade com que é preciso conviver aqui na superfície. E lhe digo mais: ouço humanos, dolorosamente como eu, pregando “amai-vos uns aos outros como eu vos amei” e, logo em seguida, “viciados são demônios”. Somos amaldiçoados pela contradição, querida mosquinha. E esse é o pior dos fardos que temos que carregar. Desejamos uma coisa, miramos nela e a perseguimos com aguerrida diligência. Morremos sem sequer dar nome ao que passamos a vida inteira a buscar.


Noite passada tive um sonho. Ou foi um pesadelo? Não sei dizer. Já não vejo diferença. Estava em um castelo. Daqueles onerosamente decorados. Coisa como o palácio de Versailles, em Paris, na França. O meu palácio de Versailles tinha longas e gigantescas escadas em formato de infinitos caracóis dourados pelos quais subíamos e descíamos. Por que o plural? Ah! Claro. Esqueci de mencionar, mas estávamos eu, minha filha Bia e um homem. O meu humano amado e por quem eu era amada na mesma medida. Juntos, os três, circulávamos e rodopiávamos pelas escadas e, a cada lance, descansávamos e aproveitávamos algum momento de regozijo delirante. Encontrávamos pessoas das mais variadas cores, formatos e tamanhos. Dialogávamos e alimentávamos uns aos outros com afetos benevolentes. Tínhamos flores e ramos em nossas cabeças, o que me faz lembrar os gregos e troianos da realeza dos contos de Homero. Os gregos e troianos que imaginei quando li Ilíada e Odisseia incontáveis anos atrás. Aqueles gregos e troianos dos bons tempos. Dos tempos de paz e glória. Curioso, mosquinha, é que os sonhos sempre começam assim, gloriosos, e se transformam no seu avesso conforme mergulhamos em sono profundo. Daí é que deve vir a razão de o chamarmos de “sono profundo”. Aquele lugar onde a luz é escassa, onde vemos o que realmente somos e, quando acordamos, esquecemos, pois, se não fosse assim, morreríamos de desgosto. Não sei dizer por que eu não esqueço. Talvez esteja presa, a 22 mil léguas, submersa na minha própria mente delirante. Aqui na superfície, somos todos realeza. Precisamos entrar em uma dimensão paralela para que consigamos olhar no espelho da nossa alma.


Conforme descíamos, notei que Bia não mais nos acompanhava. Comecei a procurá-la por todos os lados. O homem que tanto me amara também já não mais me acompanhava. Estava sozinha. Não há companhia nas profundezas. Estamos sempre sozinhas lá. Mas você sabe disso, mosquinha. Também voa solitária. Não se reúne a perdedores em bordéis ou casas de jogos. Voa solitária. Voa. Temos muito em comum, mosquinha. No meu sonho, eu flutuava. Mas era necessário movimentar meus braços como se fossem asas, e eu flutuava. Não era um voo natural e poderoso como o seu, era um pequeno poder que eu – e somente eu – tinha. Os outros seres que circulavam no meu sonho estavam todos fixos no chão. Eu também ficava invisível e podia circular entre realidades diversas. Do palácio de Versailles para um armazém abandonado onde eram realizados experimentos científicos. Calma, mosquinha, você não era objeto de estudo. Era um laboratório de química que usava apenas matéria inorgânica. Tinha balões de fundo chato, kitassatos, balões de Erlenmeyer, provetas, condensadores, funis de separação, funis de decantação – os mais variados tipos de funis que você pode imaginar. E o mais importante: nenhuma mosquinha neles. Nem drosófilas havia! Quanto a mim, eu flutuava. Saltava e, com a agitação dos braços, me mantinha no alto, lutando contra a força da gravidade em movimentos desajeitados. Desviava de vigas, depois de galhos e, então, quando percebia, estava de volta ao meu castelo procurando por Bia e não queria mais saber do amado. Perdeu a importância no momento em que partiu. Mas Bia… Ela jamais perderia a importância.


Eu perguntava a todas as pessoas, acionava todas as autoridades do subconsciente. Abrimos uma investigação. Detetives e policiais empenhavam-se nas buscas. A saga seguiu por muitos dias sublimes, e nenhum sinal de Bia. Exausta e frustrada, sentei-me debaixo de um imenso coqueiro postado entre os degraus da escadaria dourada e refleti sobre as pistas. De repente, percebi movimentos no alto da copa. Antes mesmo de olhar, já sabia que se tratava de Bia. Eu finalmente a encontrara. Ela estava no alto da copa, sendo mantida em cativeiro. Tinha em torno do corpo todo uma imensa atadura cor-de-rosa desvanecida, rasgada e apodrecida, mas que a mantinha completamente imobilizada, como a uma múmia. Debatia-se tão ferozmente, que despencou do alto do coqueiro. Eu me coloquei no local onde cairia o corpo puxado pela força implacável da gravidade, mas seu peso me derrubou. Caímos as duas. Bia bateu a testa num dos degraus dourados. Eu a acolhi imediatamente em meus braços e não tive coragem de olhar em seu rosto. Sentia sua dor. Sentia a dor da pele arrancada. Apenas abracei e acolhi. Aconcheguei em meu peito aquela mulher que é parte de mim, como quando ela era apenas uma criança. Ela se deixou aconchegar e rompeu em prantos. Estava viva! Senti que a machucava apenas por abraçá-la. Estava terrivelmente machucada. Investigadores e paramédicos vieram ao nosso encontro e tentaram removê-la de mim. Seu intuito era tratá-la para que se recuperasse. Quando aceitei que a levassem – e ela se deixou levar –, olhei em seu rosto e não consegui evitar gritar aos investigadores o que via. Seu rosto estava desfigurado. Sua face fora arrancada. Camadas removidas da face misturavam-se com camadas de uma máscara teatral. Sangue escorria, e o vermelho se fazia evidente, acumulando-se no entorno dos olhos pretos e cegos. Aquele rosto, arrancado pela crueldade de um sequestrador que a mantivera em cativeiro no alto da copa de um imenso coqueiro, me lançava aos gritos para a superfície. O peito doía, e a respiração me faltava. Procurei minha gata e pedi ajuda a ela. Acariciar seu pelo macio e farto me traz de volta ao meu lugar na superfície em momentos como esse, quando tenho a sensação de que ficarei presa em algum ponto no meio de uma jornada onde estaria, permanentemente, olhando-me no espelho.


Se você soubesse o quanto a noite é longa e escura, mosquinha, ficaria ainda mais grata pelo favor que lhe fiz. Quisera eu ter encontrado tal benfeitor ao longo dessa minha atormentada existência. Ainda são 2h34. Ainda são 3h22. Ainda são 4h45. Já são 5h36. Já tomei quatro comprimidos para dormir, e nenhum surtiu efeito. Nada abriga meu sono. Nada sossega minha alma. Nada me acalma. Quantos comprimidos ainda restam? Encho a palma da mão. Um vidro intacto, com 30 comprimidos, outro pela metade. Troco mensagens confusas, não consigo discernir as letras no visor do celular. Tento usar a digitação por voz do aparelho, mas não consigo ler para me certificar de que ele captou corretamente a mensagem ditada. Pego o copo de água. Sento-me na lateral da cama. Coloco o punhado de pílulas na boca. Bebo água. Engulo. Derramo água na camisola e, aos trancos e barrancos, me dirijo ao guarda-roupa para substituí-la. Quero morrer seca. Então me dispo e em seguida visto a camisola seca e limpa. Deito-me novamente. A realidade se dissipa. Finalmente! Acabou.



Conto premiado no concurso "Ivan Mariano Silva" da Fundação Cultural Pascoal Andreta
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